Os olhos e a COVID-19

Presidência da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica
13 de setembro de 2019

Os olhos e a COVID-19

Sociedade Brasileira de Pediatria
Grupo de Trabalho em Oftalmologia Pediátrica

Coordenador: Fábio Ejzenbaum
Membros participantes: Célia Regina Nakanami, Dirceu Solé, Galton Carvalho Vasconcelos, Júlia Dutra Rossetto, Luciana R. Silva, Luisa Moreira Hopker


A contaminação por SARS-CoV-2 através dos olhos ainda não foi cientificamente provada, porém vários relatos sugerem que o vírus pode causar uma conjuntivite folicular leve, muito parecida com a infecção adenoviral, indistinguível de outras causas, e que possa ser transmitido através do contato com a conjuntiva e lágrima.

Existe consenso entre a comunidade oftalmológica que pacientes com conjuntivite que concomitantemente apresentem febre e sintomas respiratórios possam representar potenciais casos de COVID-19.1

Algumas publicações a respeito da associação entre COVID-19 com achados oftalmológicos têm sido elucidativas para a comunidade científica.

Estudo publicado no Journal of Medical Virology2, com 30 pacientes hospitalizados por COVID-19 na China, apenas um apresentou conjuntivite. Esse paciente – e não os outros 29 – apresentava SARS-CoV-2 nas secreções oculares. Isso sugere que o SARS-CoV-2 pode infectar a conjuntiva e causar conjuntivite, e que partículas virais infecciosas podem estar presentes nas lágrimas de pacientes com COVID-19 com conjuntivite.

Outro estudo publicado no New England Journal of Medicine3, os pesquisadores observaram “congestão conjuntival” em 9 dos 1.099 pacientes (0,8%) hospitalizados com COVID-19, porém nenhum destes teve avaliação oftalmológica para confirmar a conjuntivite.

Em uma série de casos retrospectivos publicada em 31 de março na JAMA Ophthalmology4, 12 de 38 casos hospitalizados e apenas “clinicamente confirmados” de COVID-19 na província de Hubei na China, tiveram “manifestações” oculares (quemose, secreção, epífora e hiperemia). Dado interessante é que esses pacientes, em relação a outros infectados, tiveram PCR, neutrófilos e leucócitos aumentados. Outro achado foi que em dois pacientes o swab conjuntival foi positivo para o RNA da SARS-CoV-2, um deles tinha hiperemia conjuntival e outro quemose e epífora.

Estudo chinês afirmou que algumas medidas protetivas tiveram sucesso em evitar infecção para oftalmologistas envolvidos no tratamento ao COVID-19. Da triagem prévia ao uso de máscaras e protetores faciais5.

As normas sugeridas aos oftalmologistas pelo CBO (Conselho Brasileiro de Oftalmologia) órgão representativo da classe oftalmológica brasileira são6:

  • Higiene frequente das mãos com água e sabão ou álcool 70%;
  • Evitar tocar olhos, nariz e boca sem higienização adequada das mãos;
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes;
  • Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar, com cotovelo flexionado ou utilizando-se de um lenço descartável;
  • Ficar em casa e evitar contato com pessoas quando estiver doente;
  • Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com frequência. Quanto à proteção as recomendações são as seguintes:

1)  PACIENTES SEM SUSPEITA DE COVID-19: A utilização da máscara cirúrgica juntamente com Protetor Facial (face shield) para as consultas e atendimentos aos pacientes sem suspeita e ou sintomas da COVID-19;

2)  PACIENTES CONFIRMADOS OU COM SUSPEITA DE COVID-19: Utilização de máscara cirúrgica em conjunto com Protetor Facial (face shield) para as consultas e atendimentos aos pacientes com suspeita ou portadores da COVID-19;

3)  PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS: Para todos os procedimentos cirúrgicos devem ser utilizadas as máscaras N95 ou PFF2, sendo esta de uso único, podendo ser utilizada por até 12 horas.

Os dados existentes até o momento sugerem que a conjuntivite é um evento incomum no que se refere ao COVID-19. No entanto, como a conjuntivite é uma afecção muito prevalente, e temos na literatura a confirmação da presença do vírus na conjuntiva e na lágrima, não se pode afirmar que os olhos não sejam fonte de infecção, assim sugerimos proteção aos profissionais envolvidos.

Acreditamos que além da proteção para a boca, nariz e mãos, os olhos devem estar protegidos ao se cuidar de pacientes potencialmente infectados com SARS-CoV-2.

 

Referências bibliográficas

  1. American Academy of Ophthalmology. Important coronavirus updates for ophthalmologists Disponível em https://www.aao.org/headline/alert-important-coronavirus-context Acessado em 02/04/2020
  2. Jianhua Xia, Tong J, Liu M, et al. Evaluation of Coronavirus in Tears and Conjunctival Secretions of Patients With SARS-CoV-2 Infection. J Med Virol 2020; 2:24-35.
  3. Guan WJ, Ni ZY, Hu Y, et al. Clinical Characteristics of Coronavirus Disease 2019 in N Engl J Med 2020 Feb 28. doi: 10.1056/NEJMoa2002032
  4. Wu P, Duan F, Luo C, et al. Characteristics of Ocular Findings of Patients With Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) in Hubei Province, China. JAMA Ophthalmol. 2020. March 31, doi: 1001/jamaophthalmol.2020.1291.
  5. Lai THT, Tang EWH, Chau SKY, et al. Stepping Up Infection Control Measures in Ophthalmology During the Novel Coronavirus Outbreak: An Experience From Hong efes Arch Clin Exp Ophthalmol. 2020 Mar 3. doi: 10.1007/s00417-020-04641-8
  6. Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Combate ao coronavirus. Disponível em: https://www.cbo.net.br/novo/classe-medica/ComunicadosCoronavIrus.php Acessado em 02/04/2020.